Sempre fiquei em dúvida se gostava ou não de Roberto Carlos. Mas a massiva exposição do “Rei” por conta dos festejos de seus 50 anos de carreira, finalmente me esclareceram essa questão. Eu gosto de Roberto Carlos. Mas também não gosto. Confuso!? Eu explico.
Eu admiro, respeito e venero o legado do Roberto. É impossível questionar sua importância para a música brasileira. Fazendo uma rápida busca no site de letras do Portal Terra, são listadas nada menos do que 612 músicas. É música pra dédéu. Fazendo uma brincadeira, são quase dois anos, compondo letras diariamente. Isso sem falar que, calculando por baixo, uns 30% disso são grandes canções. Além disso, o rei foi um dos precursores do rock nacional. Ir a um show dele na época da Jovem Guarda, era ir a um show de rock, com toda a conotação que esse tipo de evento costuma ter.
E digo mais. Se a voz do povo é a voz de Deus, então o cara lá de cima adora Roberto. Porque eu, simplesmente, não conheço uma pessoa sequer que não saiba cantar pelo menos um refrão de alguma de suas músicas. Aliás, dúvido muito que essa pessoa exista. E isso é um privilégio para poucos. Sem falar na beleza das letras escritas em parcerias com o eterno “tremendão” Erasmo Carlos. “Eu tenho tanto pra te falar / Mas com palavras não sei dizer / Como é grande o meu amor por você”. Dificil não se render aos versos simples, diretos e ao mesmo tempo belos e profundos. Simplicidade que já fez Roberto ser tachado de "brega" e que hoje o torna "cult". Vá entender....
Por todos os aspectos que escrevi acima é que digo: Eu não gosto do Roberto Carlos. Ficou ainda mais confuso!? Não criemos pânico, eu explico. Não gosto daquele Roberto que assisti pela Globo, no apoteótico show do Maracanã. Previsível, burocrático. Quase uma caricatura de si mesmo.
Tenho a impressão de que o cantor se tornou refém de sua própria genialidade, prisioneiro de seu passado. Um ser quase inatingível, seja pelas manias que o cercam ou pela barreira global imposta por um contrato de exclusividade. São os mesmos gestos, os mesmos sorrisos, os mesmos olhares e principalmente, as mesmas músicas. Claro que ninguém quer sair de um show do Roberto sem ter ouvido "Emoções", "Detalhes" entre outras.. Mas entre um clássico e outro, seria bom ouvir coisas novas. Alías, no palco Roberto parece mais um robô. Cada movimento parece ensaiado, dentro de um roteiro seguido a risca. Até a ordem das músicas tocadas durante as suas apresentações, é exatamente a mesma. Isso já há muito tempo.
Entendo que deve ser difícil motivar alguém, que já compôs tantos clássicos, a tentar fazer música nova, buscar algo diferente. Inovar, se arriscar. Deixar a zona de conforto é algo complicado. Mas manter a expectativa do que está por vir, acesa entre o público é exatamente o que torna uma carreira interessante e relevante. E não apenas longeva.
Resumindo. Roberto Carlos pode continuar fazendo apenas o seu especial de fim de ano da Globo e ainda assim ser considerado o "Rei" , ser venerado por sua legião de fãs e vender muitos CD's. O problema é que acho isso muito pouco para alguém com tanto talento.
Ao fim do show do Maracanã, enquanto fazia o tradicional ritual da distribuição de rosas, a apresentadora do Fantástico, Patrícia Poeta, perguntou ao rei. “O que você ainda tem vontade de fazer?”. Roberto pensou um pouco, jogou as últimas rosas para o público e emendou: “Quero falar de amor, em sua plenitude. De uma forma, que até hoje eu ainda não consegui”. A resposta me chamou a atenção, pois aquelas palavras deixam transparecer o que pode vir a ser a tal da motivação para buscar coisas novas. Quem sabe não esteja nesse desejo de "falar de amor de um jeito que nunca consegui" a faisca que falta para reacender a musicalidade de Roberto Carlos, um rei, sem dúvida.